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As Câimbras

Paulo Gentil

Quase todos nós já nos deparamos com câimbras em algum momento de nossas vidas. Elas atingem pessoas de todos os níveis de atividades físicas e podem aparecer em situações totalmente diversas, sem nenhum sinal de aviso. Em meio a uma atividade física intensa, de repente, seu músculo começa a se contrair involuntariamente com uma intensidade que chega a ser dolorosa! Outras vezes, as câimbras podem surgir de maneira inexplicável. Você fica parado, relaxado, em uma determinada posição, e seu músculo simplesmente “trava”! Apesar de serem extremamente comuns, as câimbras musculares são um fenômeno altamente mal compreendido.

As câimbras são contrações musculares involuntárias intensas, caracterizadas pela ativação de uma grande quantidade de unidades motoras com alta freqüência de disparos (Miller & Layzer, 2005). As evidências disponíveis sugerem que as câimbras têm origem periférica e surgem descargas dos neurônios motores, e não do músculo em si (Miller & Layzer, 2005). A partir da literatura disponível e da observação dos casos concretos, pode-se se dividir as câimbras associadas ao exercício em duas categorias distintas. A primeira é relacionada ao excesso de trabalho e surge em situações de fadiga ou sobrecarga intensa. Na segunda, há um desequilíbrio de líquidos e eletrólitos, de modo que a transpiração elevada aliada à deficiência de eletrólitos pode levar às câimbras, mesmo na ausência de contrações musculares intensas ou de fadiga (Bergeron, 2008).

Segundo a teoria associada à fadiga, a atividade física de alta intensidade e/ou alta duração levaria a alterações no estado excitatório da fibra, com aumento da ativação do fuso muscular (estrutura que estimula as contrações) e inibição do órgão tendinoso de Golgi (responsável por impedir que as ações muito intensas possam provocar lesões), com aumento da atividade dos motoneurônios alfa. Deste modo, os mecanismos responsáveis por inibir contrações musculares intensas são desativados ao mesmo tempo em que os indutores da contração são ativados, gerando contrações involuntárias e de alta intensidade. Normalmente, isto ocorre quando o músculo está na posição encurtada, pois nessa posição a despolarização da placa terminal está alterada e a atividade inibitória do órgão tendinoso de Golgi é reduzida (Ruff et al., 1996; Hutton et al., 1986). É importante notar que quando o músculo está em uma posição encurtada, é possível verificar a ocorrência de câimbras mesmo quando não há atividade muscular (Miller & Layzer, 2005). 

Nas câimbras induzidas pelo desequilíbrio hidroeletrolítico, normalmente há um quadro de sudorese acentuada, com perda considerável de água e eletrólitos, especialmente sódio e cloreto. Apesar de a magnitude associada à câimbra ainda não ser definida, se estima que uma perda de 20-30% do sódio cambiável pode levar a câimbras severas (Bergeron, 2008). Outros eletrólitos, como potássio, magnésio e cálcio são perdidos em menor escala durante o exercício. No entanto, apesar de haver teóricos que atribuem as câimbras às deficiências destes minerais, os estudos mais recentes afirmam que isso não é verdade, segundo revisão de Bergeron (2008). Para compensar a perda de água e eletrólitos, há movimentação da água entre os diferentes compartimentos e, com isso, o espaço intersticial fica contraído. Como conseqüência da contração do espaço intersticial, algumas junções neuromusculares se tornam hiper excitáveis. A deformação mecânica das estruturas expõe os terminais nervosos desmilienizados e as membranas pós-sinápticas a níveis elevados de substâncias excitatórias (acetilcolina, eletrólitos, metabólitos…). Conforme mais água se move do espaço intersticial para o espaço intravascular, os terminais nervosos e membranas pós-sinapticas adjacentes também são afetadas, fazendo com que as câimbras se espalhem por diversos músculos. Um primeiro sinal dessas câimbras são as pequenas contrações musculares visíveis através da pele, que não chegam a ser perceptíveis quando se está em atividade. Elas podem ser um sinal de que espasmos mais intensos serão iniciados dentro de 20 a 30 minutos.

Uma diferença nítida entre os dois tipos é que as câimbras geradas pela sobrecarga ou fadiga são localizadas e se restringem ao músculo exercitado. Estas câimbras normalmente são resolvidas com alongamento, massagem, ação do antagonista, resfriamento da musculatura, etc. Já as câimbras causadas pelo desequilíbrio hidroeletrolítico se propagam para as fibras adjacentes e podem ser evitadas por meio da hidratação correta, com reposição de eletrólitos. Após a ocorrência das câimbras, alongamentos, massagens e aplicação de gelo podem aliviar os sintomas até que os eletrólitos ingeridos cheguem aos devidos locais.

Referências
Bergeron MF. Muscle cramps during exercise V is it fatigue or electrolyte deficit? Curr Sports Med 2008 Apr;7(4): S50:S55.
Hutton RS, Nelson DL. Stretch sensitivity of Golgi tendon organs in fatigued gastrocnemius muscle. Med Sci Sports Exerc. 1986 Feb;18(1):69-74.
Miller TM, Layzer RB. Muscle cramps. Muscle Nerve. 2005 Oct;32(4):431-42.
Ruff RL.Effects of length changes on Na+ current amplitude and excitability near and far from the end-plate. Muscle Nerve. 1996 Sep;19(9):1084-92.

 

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